Quando a fotografia foi apresentada publicamente na França, em 1839, o Rio Grande do Sul estava no quarto ano da Revolução Farroupilha, guerra que terminou em 1845 e o primeiro anúncio conhecido de serviços fotográficos na província foi publicado três anos e dez meses depois.
Não são conhecidas fotografias de batalhas, acampamentos ou tropas feitas durante o conflito. Jornais permitem acompanhar a passagem de fotógrafos por Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre a partir de 1848.
Este artigo sobre os primeiros anos da fotografia no Rio Grande do Sul segue essa circulação até 1854, quando Luiz Terragno abriu seu próprio ateliê em Porto Alegre. A fotografia começava a deixar de depender apenas da passagem de profissionais itinerantes.
Sumário
Entre a guerra e o primeiro anúncio
O daguerreótipo foi demonstrado no Largo do Paço, no Rio de Janeiro, em janeiro de 1840. Como vimos no artigo sobre 1840 e os primeiros anos da fotografia no Brasil, a técnica depois chegou a outras cidades.
O daguerreotipista precisava transportar câmera, placas de cobre prateadas, substâncias químicas e materiais de processamento. Cada imagem era única e não possuía negativo. O fotógrafo também precisava encontrar clientes que pagassem pelo serviço.
Não há registro de um daguerreotipista trabalhando no Rio Grande do Sul durante a Revolução Farroupilha. A guerra terminou em março de 1845, e Bento Gonçalves morreu em julho de 1847. O primeiro anúncio conhecido de serviços fotográficos foi publicado em 27 de dezembro de 1848, no Diário do Rio-Grande.
Isso não prova que nenhuma fotografia tenha sido feita antes. Significa apenas que ainda não foi encontrada uma imagem ou fonte anterior com data e origem confirmadas. O anúncio de 1848 é o registro documentado mais antigo localizado até agora.
O registro de Fredricks em 1848
O anúncio foi publicado na quarta página do Diário do Rio-Grande. Carlos D. Fredricks oferecia “retratos fixos e coloridos” na Rua da Boa Vista, número 32. Atendia das nove horas da manhã às três da tarde, “com sol ou sem ele”, e produzia retratos para botões e anéis.[1]
O norte-americano informava que deixaria Rio Grande em breve e pedia aos interessados que o procurassem antes da partida. Também afirmava que seus retratos “não são de fumaça” e não desapareceriam.[1]
A palavra “coloridos” não se referia à fotografia em cores. O daguerreótipo produzia uma imagem monocromática sobre uma placa de cobre revestida de prata. Os pigmentos eram aplicados à mão depois da exposição.
O anúncio não informa quando Fredricks chegou nem quando fez seu primeiro retrato. Lenzi e Menestrino indicam a sua permanência em Rio Grande entre dezembro de 1848 e janeiro de 1849.[2] O documento confirma que ele trabalhava na cidade, mas não identifica a primeira fotografia feita no estado.
Fredricks retornou em junho de 1849 acompanhado de Saturnino Masoni. Os dois atenderam por cerca de dez dias antes de seguir para Porto Alegre e, em outubro daquele ano, passou novamente por Rio Grande.[2] Trabalhava de forma itinerante. Permanecia enquanto havia clientes e depois seguia para outra cidade.
Rio Grande como porta de entrada
Rio Grande possuía o único porto marítimo da província e mantinha ligações comerciais com portos brasileiros, do Prata, da Europa e dos Estados Unidos. A cidade oferecia condições para a chegada de fotógrafos, equipamentos e materiais importados.[3,4]
Desta forma, o porto facilitava o transporte de câmeras, placas, produtos químicos e outros materiais importados. Também reunia comerciantes, viajantes, autoridades e famílias que podiam contratar o serviço.
Lenzi e Menestrino examinaram 18.868 exemplares de jornais de Rio Grande e encontraram 146 anúncios relacionados à fotografia. Entre 1845 e 1900, identificaram a presença ou passagem de 38 fotógrafos, entre eles apenas uma mulher.[2]
Nos primeiros anos, vários fotógrafos não mantinham estúdio permanente. Os fotógrafos atendiam durante algumas semanas ou meses e depois seguiam viagem. Rio Grande funcionava como mercado e como ponto de passagem para Pelotas, Porto Alegre e a região do Prata.
Os primeiros fotógrafos itinerantes
Depois de Fredricks, outros fotógrafos anunciaram serviços em Rio Grande. Em dezembro de 1849, Francisco Meeks abriu a “Galeria Nacional de New-York ou Nec Plus Ultra” no Beco do Afonso. Oferecia retratos de crianças e recomendava vestidos escuros ou pretos às mulheres.[2]
Em 1850, os jornais registraram a atuação do italiano Luiz Terragno. Em 1851, o francês Amadeo Gras ocupou a Rua da Boa Vista, número 32, endereço já usado por Fredricks e Terragno. Gras produzia daguerreótipos e retratos a óleo e permaneceu na cidade de maio a dezembro.[2]
Também em 1851, Horácio Souto Muniz trabalhou na Rua Direita, número 77, e J. Dufrene anunciou serviços sem informar endereço. Muniz divulgava um “sistema inteiramente novo”, mas não explicava o procedimento. Em setembro de 1852, Frederico Langenheim trabalhou por poucas semanas na Rua Direita, número 166.[2]
Em 1853, o arquiteto e fotógrafo Roberto Offer instalou-se na Rua da Igreja, número 40. Produzia retratos sobre prata, papel e vidro e também atendia em Pelotas.[2]
Em 1854, Serafina Maria S. Yª anunciou serviços de eletrotipo no Largo do Poço. Produzia retratos de vários tamanhos e anunciava ser possível fotografar grupos de trinta a quarenta pessoas. Foi a única mulher encontrada nos jornais pesquisados entre 1845 e 1900.[2]
As rotas para Pelotas e Porto Alegre
Os fotógrafos circulavam entre Rio Grande, Pelotas, Porto Alegre, Montevidéu e Buenos Aires. Rio Grande era o ponto marítimo dessa circulação. Pelotas tinha um mercado ligado à economia do charque e Porto Alegre era a capital. As cidades gaúchas se conectavam pela Lagoa dos Patos e por rotas terrestres.[3,5]
Em junho de 1849, Fredricks e Saturnino Masoni anunciaram que deixariam Rio Grande e seguiriam para Porto Alegre. Miguel Duarte registra Fredricks na capital naquele mesmo mês. Duarte também atribui a Fredricks & Weeks um daguerreótipo de Maria Rita, aos 14 anos, mas a matéria consultada não informa a data do retrato.[6]
Masoni aparece na viagem anunciada em Rio Grande. Alexander Weeks aparece como associado de Fredricks em Porto Alegre. As fontes consultadas não demonstram que os dois tenham participado da mesma passagem.
Luiz Terragno trabalhou em Rio Grande em 1850, passou por Pelotas em 1851 e retornou a Rio Grande em agosto de 1853. Roberto Offer anunciou serviços em Rio Grande e Pelotas naquele mesmo ano.[2]
Os fotógrafos permaneciam em cada cidade enquanto havia clientes. Depois, seguiam para outro mercado.
O que a fotografia não registrou da Revolução Farroupilha
Não foi localizada uma fotografia comprovada de batalhas, acampamentos, tropas ou civis produzida durante a Revolução Farroupilha.
O daguerreótipo já existia, mas exigia câmera, placas, produtos químicos e processamento no local. Os longos tempos de exposição também dificultavam o registro de pessoas em movimento.
Um estudo de 2020 analisa uma fotografia em papel atribuída a Bento Gonçalves. O exemplar traz no verso o carimbo de Alberto Bixio & Cia., de Montevidéu, e uma anotação posterior que o identifica como original. Os autores defendem que a fotografia seria uma reprodução de um daguerreótipo feito durante a vida de Bento Gonçalves.[7]
O estudo não apresenta a chapa original nem documentação que permita acompanhar a imagem desde a produção. Por isso, não é possível confirmar diretamente o processo, a autoria, a data ou o local do retrato.
Mesmo que o retrato tenha sido feito durante a vida de Bento Gonçalves, seria o retrato de uma das lideranças, não um registro das batalhas, dos acampamentos ou das tropas.
Os primeiros anos da fotografia no Rio Grande do Sul: da passagem à permanência
Luiz Terragno trabalhou em Rio Grande em 1850, passou por Pelotas em 1851 e retornou a Rio Grande em agosto de 1853. Instalou a Terragno & Cia. na Rua do Pito, número 59, onde permaneceu até novembro.[2]
Os anúncios chamavam o processo de “eletrótipo” e o apresentavam como mais rápido para retratar crianças.[2,8]
Um manual de 1858 empregava “electrotyping” tanto no prateamento elétrico das placas quanto na produção de cópias metálicas de daguerreótipos.[10]
Placas prateadas por eletrodeposição podiam reduzir o tempo de exposição.[11] Como o anúncio não descreve o procedimento, não é possível identificar a técnica usada por Terragno.
Terragno teria chegado a Porto Alegre no final de 1853 e se associou ao pintor Bernardo Grasselli em um estabelecimento na Rua do Rosário, esquina com a Rua da Alegria. A sociedade terminou em 1854, quando Terragno abriu seu próprio ateliê.[8,9]
Terragno continuou viajando, mas passou a manter um endereço e uma clientela em Porto Alegre. A fotografia começava a deixar de depender apenas da passagem de profissionais itinerantes.
Seis anos separaram o anúncio de Fredricks, em 1848, do ateliê de Terragno, em 1854. Rio Grande foi o primeiro ponto documentado, funcionando como entrada marítima. Pelotas integrou as rotas e Porto Alegre iniciou a fase dos estabelecimentos mais estáveis.
Fredricks é o primeiro fotógrafo documentado no estado enquanto Terragno marca o início da permanência.
Referências e fontes consultadas
[1] Diário do Rio-Grande. Anúncio de Carlos D. Fredricks. Rio Grande, 27 dez. 1848, p. 4. Hemeroteca Digital Brasileira.
[2] LENZI, Teresa; MENESTRINO, Flávia. Pioneiros da fotografia em Rio Grande: indícios de passagens e permanências. Relato de uma pesquisa histórica. Revista Memória em Rede, Pelotas, v. 2, n. 5, p. 165–180, abr./jul. 2011. Página do artigo.
[3] BERUTE, Gabriel Santos. Rotas, mercadorias e agentes mercantis: Rio Grande de São Pedro, primeira metade do século XIX. In: ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA DA ANPUH-RS, 11., 2012, Rio Grande. Anais do XI Encontro Estadual de História da ANPUH-RS. Rio Grande: FURG, 2012, p. 370–386. Texto integral.
[4] OLIVEIRA, Vinicius Pereira de. Marinheiros no mundo do trabalho portuário de Rio Grande/RS (1835–1864). Ciências Humanas e Sociais em Revista, Seropédica, v. 34, n. 2, p. 72–89, jul./dez. 2012. DOI e texto integral.
[5] BROQUETAS, Magdalena (coord.); BRUNO, Mauricio; VON SANDEN, Clara; WSCHEBOR, Isabel. Fotografía en Uruguay: historia y usos sociales, 1840–1930. Montevidéu: Centro de Fotografía, 2011. Registro e texto digital.
[6] CHAVES, Ricardo. Charles DeForest Fredricks: o primeiro retratista do RS. Almanaque Gaúcho, 26 set. 2021. Texto baseado na pesquisa de Miguel Antônio de Oliveira Duarte. GZH.
[7] HÜTTNER, Édison; HÜTTNER, Eder Abreu; FRANCO HERNANDEZ, Miguel Angel. A foto de Bento Gonçalves da Silva: daguerreótipos e farroupilhas. In: Desafios com esperança: XXV antologia. Porto Alegre: UBE-RS, 2020, p. 35–48. ISBN 9786588992005. Repositório Institucional da PUCRS.
[8] WANDERLEY, Andrea C. T. Dom Pedro II fotografado pelo italiano Luis Terragno (c. 1831–1891), fotógrafo da Casa Imperial. Brasiliana Fotográfica, 2 dez. 2022, atualização em 31 out. 2025. Biografia, cronologia e fontes.
[9] EDITORA CAPIVARA. Luiz Terragno. Biografia e trajetória profissional.
[10] HUMPHREY, Samuel D. American Hand Book of the Daguerreotype. 5. ed. Nova York: S. D. Humphrey, 1858. Cap. V. Project Gutenberg.
[11] NATIONAL SCIENCE AND MEDIA MUSEUM. Faster photographs: Electroplate and the daguerrotype. Texto integral.
