Em Uma introdução aos registros visuais e às práticas de identificação e investigação, vimos que desenhos, mapas, plantas, croquis e outras formas de representação já atendiam a diferentes finalidades antes da inserção da fotografia como meio de registro.
A apresentação pública do daguerreótipo, em Paris, em 1839, se apresenta como um dos marcos da história da fotografia.
Quando os acontecimentos daquele ano ganharam repercussão, experiências quanto à produção e à fixação de imagens já vinham sendo realizadas havia algum tempo, tanto na Europa como no Brasil.
Nesse sentido, o ano de 1839 deve ser visto dentro de um processo que começou anteriormente, não se desenvolvendo apenas por um único caminho.
Sumário
Antes da fotografia: a formação da imagem pela luz
Muito antes de ser possível registrar fotograficamente uma cena, já se conhecia um fenômeno que mais tarde seria fundamental para o desenvolvimento da fotografia.
Em um ambiente escurecido, a luz proveniente do exterior, ao atravessar uma pequena abertura, podia projetar sobre a superfície oposta uma imagem invertida do que se encontrava diante dela. Esse princípio está na origem do dispositivo que posteriormente ficou conhecido como câmara escura (camera obscura, em latim).
Um texto chinês atribuído a Mozi, no século IV a.C., descrevia a formação de uma imagem invertida quando a luz atravessava uma pequena abertura.
Na Grécia antiga, observações relacionadas à projeção da luz solar por pequenas aberturas aparecem em Problemas, obra atribuída a Aristóteles.
No início do século XI, Ibn al-Haytham realizou estudos experimentais sobre a formação de imagens na câmara escura, relacionando o fenômeno a uma análise geométrica da luz.
Dessa forma, quando os pesquisadores do início do século XIX começaram a procurar meios de conservar uma imagem produzida pela luz, o princípio óptico já possuía uma longa história.
Faltava uma resposta: como fazer aquela imagem permanecer depois que a luz deixasse de produzi-la.
A busca por uma imagem permanente
No final do século XVIII, Thomas Wedgwood e Humphry Davy utilizaram nitrato de prata para produzir imagens por contato. O resultado continuava sensível à luz e acabava se perdendo quando exposto por mais tempo.
Joseph Nicéphore Niépce realizou experiências semelhantes. Segundo Harry Ransom Center (centro de pesquisa em humanidades da Universidade do Texas, em Austin) registra que Niépce já realizava experiências com imagens obtidas por câmera em 1816, indicando que View from the Window at Le Gras, foi produzida em 1827.
Em 1829, Niépce se associou a Louis Jacques Mandé Daguerre. Após a morte de Niépce, em 1833, Daguerre continuou com os trabalhos e realizou outros aperfeiçoamentos.
Enquanto esses trabalhos eram realizados na França, outra experiência se desenvolvia no Brasil.

1833: experiências fotográficas no Brasil
Hercule Florence, nascido em Nice (França), participou da Expedição Langsdorff como desenhista e, posteriormente, veio morar no Brasil, cidade de Campinas, realizando experiências com materiais sensíveis à luz e processos de obtenção e reprodução de imagens.
Seus registros de 1833 fazem referência ao emprego da câmara escura, do nitrato de prata e à tentativa de obter e conservar imagens. Seus manuscritos registram experiências em janeiro daquele ano.
Os documentos deixados por Florence descrevem experiências realizadas com câmera. Entre os materiais efetivamente conservados encontram-se cópias fotográficas realizadas por contato, como um diploma maçônico de 1832–1833 e a denominada Epréuve Nº 2 (photographie), de 1833.
22 de outubro de 1833: Photographie ou Imprimerie à la lumière
Entre os manuscritos de Hercule Florence encontra-se uma folha datada de 22 de outubro de 1833 com o título Photographie ou Imprimerie à la lumière.
O documento faz parte da Coleção Cyrillo Hercules Florence, do Instituto Moreira Salles, e encontra-se reproduzido e catalogado pelo Instituto Hercule Florence.
O manuscrito indica que Florence empregava a palavra Photographie em 1833 em suas experiências de impressão pela luz.
Assim, antes do anúncio de 1839, em Paris, percebe-se que existia uma linha independente de experimentação fotográfica no Brasil.
Outros trabalhos anteriores ao anúncio de 1839
Experimentos nesta área também eram realizados na Inglaterra.
William Henry Fox Talbot registrou, em 1834, um método baseado na sensibilidade do nitrato de prata à luz, o manuscrito Some Account of Photogenic Drawing foi recebido pela Royal Society em 28 de janeiro de 1839 e lido em 31 de janeiro.
Nesse momento, o registro utilizado era photogenic drawing. O calótipo foi desenvolvimento posteriormente, não podendo ser associado para descrever os trabalhos de Talbot em janeiro de 1839.
Outras experiências eram realizadas no mesmo período, inclusive na França, como as de Hippolyte Bayard.
É nesse contexto de diversidade de experimentos que o anúncio de janeiro de 1839 está inserido.
O anúncio de 7 de janeiro de 1839
Em 7 de janeiro de 1839, François Arago apresentou à Academia de Ciências de Paris o processo desenvolvido por Daguerre.
O registro da sessão, publicado nos Comptes rendus hebdomadaires des séances de l’Académie des sciences, nas páginas 4 a 7 do volume do 1º semestre daquele ano.
A apresentação oferecia uma visão geral da descoberta e de seus resultados, sem colocar à disposição do público uma descrição completa que permitisse reproduzir o procedimento.
O dia 7 de janeiro marcou a apresentação da descoberta gerando grande repercussão na França e em outros países.
A notícia chega ao Brasil
Em 1º de maio de 1839, o Jornal do Commercio, no Rio de Janeiro, publicou uma notícia sobre a descoberta anunciada na França.
Através desse artigo que Hercule Florence tomou conhecimento do trabalho de Daguerre, anos depois de suas próprias experiências com a fotografia no Brasil.
Em outubro de 1839, Florence publicou na imprensa paulista uma manifestação sobre os trabalhos de Daguerre, reproduzida também pelo Jornal do Commercio em dezembro daquele ano.
Entre o anúncio e a divulgação do processo
Em 14 de junho de 1839, o ministro francês do Interior, Tanneguy Duchâtel, organizou uma convenção provisória com Daguerre e Joseph-Isidore Niépce, filho de Nicéphore Niépce.
Pelo documento, Daguerre e Isidore Niépce cediam ao Estado francês desde o processo de Niépce, os aperfeiçoamentos realizados por Daguerre até o processo mais recente utilizado para fixar as imagens produzidas pela câmara escura.
Depois das negociações e formalidades legais, ocorreu a sessão de 19 de agosto. Assim, janeiro está relacionada ao anúncio institucional da descoberta, enquanto que, em agosto, as negociações e medidas legais que tornaram públicos os detalhes técnicos.
1839 e a apresentação pública da fotografia
Podemos entender que a fotografia não surgiu de um único acontecimento em 1839.
O ano é um marco na história da fotografia porque foi apresentado publicamente e amplamente difundido, não porque foi a primeira vez que alguém produz uma imagem pela ação da luz.
No final de 1839, o navio francês L’Oriental-Hydrographe chegou ao Rio de Janeiro e, em janeiro de 1840, Louis Comte realizou demonstrações públicas do daguerreótipo.
Com o tempo, a fotografia deixou de ficar restrita às experiências e passou a fazer parte da vida social. Nas décadas seguintes, seu uso se expandiu para atividades científicas, documentais e institucionais.
Fontes
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