Uma introdução aos registros visuais e às práticas de identificação e investigação

História

A fotografia não inventou a necessidade de representar, registrar e comparar informações. Antes de seu desenvolvimento, desenhos de observação, gravuras, mapas, plantas, croquis e ilustrações anatômicas já eram utilizados como registros visuais na ciência, na medicina, na administração e em atividades judiciárias.

O presente texto tem por objetivo introduzir algumas relações entre essas formas de documentação e a utilização da fotografia em práticas de identificação e investigação. Para tanto, entende-se que a necessidade de registrar e conservar informações é anterior ao próprio processo fotográfico.

Não se pretende, neste momento, apresentar uma história completa da fotografia criminalística, mas estabelecer um ponto de partida para compreender como o registro fotográfico foi incorporado a necessidades que já existiam.

Registros visuais e antecedentes da fotografia

Pessoas, corpos, objetos e lugares eram representados muito antes da possibilidade de fixar uma imagem produzida pela ação da luz.

Os desenhos de observação permitiam registrar características visíveis, enquanto isso, as ilustrações anatômicas apresentavam estruturas do corpo humano. Mapas, plantas e croquis eram utilizados para representar a localização, a distribuição e a relação espacial entre elementos espaciais.

Cada forma de representação era utilizada de acordo com a informação que se pretendia conservar ou comunicar. Um croqui, por exemplo, permitia representar o espaço e destacar posições ou distâncias. Uma ilustração podia selecionar determinadas características de um objeto ou de uma estrutura anatômica.

Com o surgimento da fotografia, essas formas de documentação não desapareceram. Desenhos, descrições, mapas e croquis continuaram sendo utilizados e, dependendo, atuando de maneira complementar ao registro fotográfico.

O que a fotografia apresentava de novo?

A novidade da fotografia não estava na possibilidade de apenas representar pessoas, objetos ou lugares. Como se pode percceber, já era uma atividade comum.

A novidade estava na produção e na fixação de uma imagem mediante a ação da luz sobre um suporte fotossensível, com auxílio de um sistema óptico e de processos químicos.

A apresentação pública do daguerreótipo, em Paris, em 1839, costuma ser utilizada como um dos principais marcos da história da fotografia. O processo produzia uma imagem única sobre uma placa metálica e, com certa velocidade, se difundiu por diferentes países.

A participação de um equipamento e de processos físicos e químicos, não significava que a imagem fosse produzida de maneira neutra.

A posição da câmera, o ponto de vista, o enquadramento, a iluminação, a exposição e o momento escolhido para o registro continuaram a depender de decisões humanas, assim como os registros que já eram produzidos. Consequência disso é a escolha das informações a serem incluídas na fotografia e também aquilo que ficaria fora da imagem.

Nesse sentido, a fotografia modificou a mediação entre o observador, o objeto registrado e a imagem resultante, mas não eliminou a participação de quem produzia o registro.

Câmera fotográfica analógica antiga entre fotografias em preto e branco e estojo de couro, representando registros visuais e a história da fotografia.
A fotografia introduziu uma nova forma de registro: a produção e a fixação da imagem pela ação da luz. Crédito Foto: congerdesign/Pixabay

Necessidades já existentes

Instituições policiais, médicas, administrativas e judiciárias procuravam maneiras de observar, descrever, comparar, classificar e conservar informações.

Era necessário reconhecer pessoas, registrar características físicas, documentar corpos e objetos, representar lugares e organizar arquivos para consultas posteriores. Essas necessidades não surgiram com a fotografia.

A nova técnica passou a ser incorporada gradualmente como mais um recurso de documentação. Essa incorporação, contudo, não ocorreu ao mesmo tempo nem da mesma forma em todas as instituições.

Na atividade policial, a fotografia passou a integrar arquivos de identificação. Livros organizados pela polícia de Washington entre 1878 e 1896, por exemplo, reuniam fotografias e informações destinadas a auxiliar policiais e vítimas no reconhecimento de suspeitos.

No Rio Grande do Sul, a relação entre fotografia, medicina e identificação também pode ser observada no álbum Os criminosos do Rio Grande do Sul, organizado pelo médico Sebastião Leão, na Casa de Correção de Porto Alegre, em 1896, e publicado no ano seguinte. O documento será abordado futuramente pela PHOSCRIM.

Na medicina, a fotografia também começou a ser utilizada durante o século XIX para registrar pacientes, condições clínicas e estruturas corporais. Sua aplicação variava conforme as necessidades de cada especialidade e as condições técnicas disponíveis.

Como se pode verificar, a fotografia foi sendo incorporada a instituições que possuíam necessidades e finalidades distintas.

Outras utilizações foram construídas em atividades judiciárias, administrativas e documentais. A fotografia passou a registrar pessoas, corpos, lugares, objetos e vestígios, mas esses usos ainda não constituíam um método único de investigação.

Diferentes práticas

A relação entre fotografia, identificação e investigação foi formada por diferentes experiências e contextos.

A fotografia de identificação policial não possuía necessariamente os mesmos objetivos da fotografia médico-legal. Da mesma forma, o registro de uma pessoa apresentava necessidades diferentes da documentação de um ambiente ou de um objeto.

Para que a fotografia adquirisse valor institucional, não bastava produzir a imagem. Era necessário associá-la a nomes, datas, descrições, arquivos e demais informações que permitissem compreender o que havia sido registrado.

Desse modo, a importância da fotografia não resultava apenas de sua aparência visual. Dependia também de sua inserção em procedimentos de identificação, classificação, comparação e conservação documental.

Considerações finais

A fotografia não nasceu policial, forense, judiciária ou criminalística.

Essas aplicações foram construídas gradualmente, conforme a nova técnica passou a responder a diferentes necessidades de registro, identificação e investigação.

Portanto, a fotografia não substituiu imediatamente as formas anteriores de documentação, nem inaugurou as práticas às quais seria posteriormente associada.

Em um primeiro momento, a fotografia somou-se às formas de documentação já existentes. Ao longo do tempo, passou a modificar a maneira como determinadas informações eram produzidas, organizadas e consultadas.

Fontes

DANIEL, Malcolm. Daguerre (1787–1851) and the Invention of Photography. The Metropolitan Museum of Art, 1º out. 2004. Acesso em: 6 ago. 2026.

FIGUEIRÓ, Raquel Braun. Os detentos têm rosto: o álbum do médico Sebastião Leão — Porto Alegre, 1896. In: XII Jornada de História Cultural: História, Cultura e Imagem. Porto Alegre, 2015, p. 199–217.

KLUSKENS, Claire. Mug Books: An Unusual Avenue of Genealogical Inquiry. The Unwritten Record — National Archives, 2 fev. 2021. Acesso em: 6 ago. 2026.

MICHELANGELI, Fabian. Imaging the Unimaginable: Medical Imaging in the Realm of Photography. Clinics in Dermatology, v. 37, n. 1, p. 38–46, 2019. DOI: 10.1016/j.clindermatol.2018.09.008. Acesso em: 6 ago. 2026.