Daguerreótipo histórico do Paço Imperial, no Rio de Janeiro, com pessoas e cavalos diante do edifício.

1840 e os primeiros anos da fotografia no Brasil

História

Quatro meses depois de o daguerreótipo ser apresentado em Paris, o navio-escola francês L’Oriental-Hydrographe chegou ao Rio de Janeiro, em 23 de dezembro de 1839. A notícia da invenção do processo de Daguerre já não era novidade em terras brasileiras.

Chegava ao Rio de Janeiro um daguerreótipo e uma pessoa capaz de operá-lo. Em 16 de janeiro de 1840, Louis Comte produziu daguerreótipos do Chafariz do Largo do Paço e do Mercado da Praia do Peixe. Poucos dias depois, demonstrou o processo ao imperador D. Pedro II, então com 14 anos.

Nos anos seguintes, fotógrafos estrangeiros começaram a oferecer retratos, abriram oficinas temporárias e anunciaram seus serviços nos jornais, levando a técnica a outras cidades.

O daguerreótipo chegou a bordo de um navio-escola

O L’Oriental-Hydrographe era um navio-escola da marinha mercante francesa. Transportava cerca de 80 pessoas, entre alunos, tripulantes e professores, além de instrumentos utilizados nas atividades de ensino.

O daguerreótipo era um dos equipamentos levados na viagem. A expedição pretendia utilizá-lo para registrar o percurso e apresentar o novo processo nos portos visitados.

Entre os viajantes estava Louis Comte, responsável pela assistência religiosa e pelo ensino de música e canto. Comte sabia operar o equipamento e realizou as demonstrações no Rio de Janeiro.

16 de janeiro de 1840: daguerreótipos no Largo do Paço

Em 16 de janeiro de 1840, Comte produziu daguerreótipos nas proximidades do Largo do Paço, atual Praça XV de Novembro, no Rio de Janeiro. No dia seguinte, o Jornal do Commercio noticiou a demonstração.

As imagens registraram o Chafariz do Largo do Paço e o Mercado da Praia do Peixe. O processo não gerava um negativo que permitisse produzir outras cópias. Cada daguerreótipo era uma imagem única, formada sobre uma placa metálica cuja visualização variava conforme a incidência e o ângulo da luz.

Esses registros costumam ser apresentados como as primeiras fotografias produzidas no Brasil, o que acaba desconsiderando que Hercule Florence já havia realizado experiências fotográficas na Vila de São Carlos, atual Campinas, desde 1833.

Nem todas as placas que costumam ser associadas ao episódio possuem autoria e data seguras. Uma das imagens do Paço pode ter sido produzida por Augustus Morand entre 1842 e 1843, questão examinada por Boris Kossoy em “O mistério dos daguerreótipos do Largo do Paço”.

D. Pedro II conhece o daguerreótipo

Poucos dias depois, Comte demonstrou o processo no Paço de São Cristóvão diante do imperador D. Pedro II, então com 14 anos. Em março de 1840, o jovem adquiriu um aparelho de daguerreotipia por intermédio do comerciante Felício Luzaghy.

Por causa dessa compra, D. Pedro II costuma ser apresentado como primeiro fotógrafo nascido no Brasil. A aquisição do aparelho e seu interesse pela fotografia são conhecidas, mas não comprova que tenha operado o equipamento ou produzido daguerreótipos naquele período.

O interesse de D. Pedro II pela fotografia continuou ao longo do reinado. Ele encomendou imagens e reuniu uma coleção de cerca de 25 mil fotografias, doada à Biblioteca Nacional em 1889.

A Casa Imperial também concedeu a diferentes profissionais o título de Photographos da Casa Imperial. Os fotógrafos autorizados utilizavam essa distinção em anúncios e na identificação de seus estabelecimentos.

Ainda não havia um serviço permanente

Louis Comte permaneceu pouco tempo no Rio de Janeiro. Em 26 de janeiro de 1840, o L’Oriental partiu para Montevidéu. Comte permaneceu na capital uruguaia, onde ensinou daguerreotipia.

A demonstração não resultou na abertura de oficina ou na oferta do serviço no Rio de Janeiro.

Para que a daguerreotipia se tornasse um ofício, eram necessários profissionais na cidade, divulgação, clientes e acesso às placas e aos produtos químicos exigidos pelo processo.

A produção de um daguerreótipo também não era fácil. Era necessário polir e sensibilizar a placa, expor a placa na câmera, revelar a imagem com vapor de mercúrio e proteger sua superfície contra danos.

Como o tempo de exposição era longo, as primeiras imagens registravam locais e objetos sem movimento. Com os aperfeiçoamentos do processo, se conseguiu reduzir de exposição, facilitando a produção de retratos.

A oferta comercial de daguerreótipos no Rio de Janeiro começou a aparecer de forma documentada em 1842.

Produção de um daguerreótipo: preparo da placa, sensibilização, exposição, revelação e montagem. Vídeo: J. Paul Getty Museum, em inglês.

Em 1842, daguerreótipos passam a ser vendidos no Rio de Janeiro

Em 1842, profissionais começaram a produzir daguerreótipos para clientes no Rio de Janeiro. Entre eles estavam os norte-americanos Augustus Morand e J. E. Smith, que chegaram à cidade em 25 de novembro.

Em 23 de dezembro, abriram um gabinete no Hotel Pharoux, no Largo do Paço. O estabelecimento funcionava no salão 52, no segundo andar do hotel.

O anúncio publicado no Jornal do Commercio apresentava o serviço como “o daguerreótipo na sua perfeição”. O daguerreótipo passava a ser oferecido comercialmente.

Em janeiro de 1843, Morand e Smith foram chamados ao Paço, onde produziram retratos de D. Pedro II e das princesas, além de vistas da Quinta da Boa Vista. As imagens podiam ser vistas no gabinete do Hotel Pharoux.

A sociedade durou poucos meses porque Morand deixou o Rio de Janeiro em 13 de abril de 1843.

Poucos dias depois, J. D. Davies anunciou que tinha comprado lâminas e outros materiais da dupla norte-americana. Davies continuou atendendo no Hotel Pharoux e depois transferiu o gabinete para a Rua do Ouvidor, 75.

Fachada do Hotel Pharoux, no Rio de Janeiro, fotografada por Revert Henrique Klumb entre 1855 e 1863, ilustrando artigo 1840 e os primeiros anos da fotografia no Brasil.
Hotel Pharoux, no Rio de Janeiro, entre 1855 e 1863. Fotografia de Revert Henrique Klumb. Acervo da Fundação Biblioteca Nacional.

Madame Lavenue também vendia daguerreótipos no Rio de Janeiro

Em 1842, Madame Lavenue fazia retratos em daguerreótipo no Rio de Janeiro. Seus anúncios continuaram sendo publicados até fevereiro de 1843.

Ela atendia no Hotel da Itália, no Largo do Rocio, e também ia à casa dos clientes. O horário informado era das 9h às 11h e das 14h às 17h. Os retratos custavam entre 12 e 15 mil-réis.

Madame Lavenue era casada com o francês Hyppolite Lavenue, que trabalhava como daguerreotipista e afinador de pianos.

Na exposição da Academia Imperial de Belas Artes de 1842, Madame Lavenue apresentou alguns retratos e uma cópia de gravura. Em 9 de janeiro de 1843, uma carta sem assinatura publicada no Jornal do Commercio elogiou a nitidez de seus retratos.

Em fevereiro de 1843, Madame Lavenue também anunciou aulas para pessoas que possuíam um daguerreótipo, mas não sabiam utilizá-lo.

A primeira expansão da fotografia ocorreu com o retrato

Nos primeiros anos, o retrato tornou-se o principal serviço dos daguerreotipistas. Cada daguerreótipo era uma imagem única, produzida diretamente sobre uma placa metálica e geralmente protegida por um estojo.

O preço e o pequeno número de profissionais limitavam o acesso ao serviço. A atividade se concentrava no Rio de Janeiro, embora daguerreotipistas também começassem a atender em outras cidades.

Alguns profissionais permaneciam pouco tempo em cada lugar. Anunciavam nos jornais onde realizariam os retratos e depois seguiam viagem.

No Rio de Janeiro, Morand e Smith atenderam no Hotel Pharoux, enquanto Madame Lavenue trabalhou no Hotel da Itália e também foi à casa dos clientes.

Buvelot, Prat e a Casa Imperial

Por volta de 1845, Abram-Louis Buvelot abriu uma oficina de daguerreotipia na Rua dos Latoeiros, 36, no Rio de Janeiro. Prat passou a atuar como seu sócio posteriormente.

A oficina produziu retratos da família imperial. Em 1849, Buvelot recebeu pela produção de 19 retratos e pelo fornecimento de 20 estojos. No ano seguinte, a Mordomia Imperial pagou por retratos de D. Pedro II.

Em 1851, Buvelot e Prat foram a Petrópolis para fotografar diferentes pontos da colônia imperial. Descrições dessas imagens mencionam o palácio ainda em construção, o Hotel Suíço, uma serraria e algumas ruas. Os daguerreótipos produzidos nessas viagens estão desaparecidos. Uma litografia de Alfred Martinet produzida no início da década de 1850 mostra o Hotel Suíço na Rua do Imperador.

Em 8 de março de 1851, D. Pedro II autorizou Buvelot & Prat a utilizar as armas imperiais na fachada da oficina. No Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro de 1852, o estabelecimento aparece anunciado como Officina Imperial de Buvelot & Prat.

Onze anos depois da demonstração de Louis Comte, a daguerreotipia já não dependia somente de profissionais de passagem pelo Rio de Janeiro. Havia uma oficina estabelecida, encomendas pagas pela Casa Imperial e reconhecimento oficial.

De 1840 às primeiras oficinas

Em janeiro de 1840, Louis Comte utilizou o equipamento trazido a bordo do L’Oriental-Hydrographe para produzir daguerreótipos no Rio de Janeiro e demonstrar o processo.

Onze anos depois da demonstração de Louis Comte, D. Pedro II autorizou Buvelot & Prat a utilizar as armas imperiais na fachada da oficina. Nesse intervalo, a daguerreotipia passou de uma demonstração pública a um serviço vendido no Rio de Janeiro, com profissionais, anúncios e locais de atendimento.

Essa história não pode ser reconstruída apenas pelas imagens que sobreviveram. Os daguerreótipos produzidos por Buvelot e Prat em Petrópolis estão desaparecidos. Os anúncios de jornais preservaram nomes, endereços, horários e preços dos serviços oferecidos naquele período.

No próximo artigo, a trajetória segue para o Rio Grande do Sul: quando a daguerreotipia chegou à província, quais documentos registraram essa presença e quem foram os primeiros profissionais a oferecer o serviço.

Fontes

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CASTRO, Danielle Ribeiro de. “Photographos da Casa Imperial: a nobreza da fotografia no Brasil do século XIX”. In: IV Encontro Nacional de Estudos da Imagem; I Encontro Internacional de Estudos da Imagem. Londrina: Universidade Estadual de Londrina, 2013.

Cronologia de Augustus Morand, Brasiliana Fotográfica.

Como era Petrópolis há 180 anos?”. Petrópolis Sob Lentes, 16 mar. 2025.

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Dom Pedro II e a fotografia, Brasiliana Fotográfica.

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G1. “Livro traz o primeiro registro fotográfico da história do Rio”. 16 jan. 2020.

Jornal do Commercio, edições de 1º de maio de 1839; 17, 20 e 27 de janeiro de 1840; 23 e 24 de dezembro de 1842; 9 e 27 de janeiro de 1843; 25 de abril e 3 de maio de 1843. Edições reproduzidas e identificadas pela Brasiliana Fotográfica, Fundação Biblioteca Nacional.

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TURAZZI, Maria Inez. “A viagem do Oriental-Hydrographe (1839–1840) e a introdução da daguerreotipia no Brasil”. Acervo: Revista do Arquivo Nacional, v. 23, n. 1. Registro do artigo.

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WANDERLEY, Andrea C. T. “Cronologia de Abram-Louis Buvelot”. Brasiliana Fotográfica, 6 jan. 2021, atualização em 19 jul. 2022.